Alta não dá sinais de trégua com dificuldades de recomposição nas cadeias de produção, e preços devem se manter elevados em 2022; subida dos juros e inflação podem criar entraves ao mercado.
A desorganização nas cadeias de produção em escala global
gerada pela pandemia da Covid-19 criou um verdadeiro “apagão” de modelos novos nas
concessionárias brasileiras. Na outra ponta, a demanda de clientes se manteve aquecida
durante a crise sanitária, e, diante da falta de carros 0 km, os consumidores se voltaram para o mercado de usados e
seminovos. Esse movimento fez com que o preço de veículos usados disparasse 34%
em 2021, um avanço sem precedentes, de acordo com o levantamento da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), responsável pela elaboração da famosa tabela usada como
referência na negociação de carros no país. Em comparação, no ano anterior a
alta foi de 5,8%. “É um crescimento completamente fora do padrão. Desde a
criação do Plano Real [em 1994], a tendência é um crescimento abaixo da
inflação”, afirma Guilherme Moreira, coordenador do Índice de Preços ao Consumidor
(IPC) da Fipe.
E os sinais não apontam para a reversão deste quadro em
breve, ao menos não em 2022. Segundo especialistas, a entrega de componentes
eletrônicos e outras peças essenciais para as montadoras vai se normalizar
apenas no próximo ano. Ou seja, apesar de em menor intensidade do que nos anos
anteriores, montadoras devem suspender esporadicamente a produção de veículos
novos, alimentando a alta dos preços dos usados. “Não vejo condições de
normalização ainda neste ano. Ao longo de 2022, deveremos ter algumas paradas
em montadoras pela falta de peças, mas não no nível que se observou no ano
passado”, pontua Antônio Jorge Martins, coordenador dos cursos automotivos da
Fundação Getulio Vargas (FGV).
No
lado da demanda, a “poupança forçada” pela pandemia aumentou a compra de bens
duráveis, como os automóveis. Na falta de carros novos, os brasileiros migraram
para o outro segmento. Como em qualquer produto, a alta procura superaqueceu o
mercado e jogou os preços para cima. A demanda por carros usados também passa
pela exclusão de uma porção importante da população brasileira do mercado de
novos. Dados da Fipe mostram que os veículos 0 km tiveram alta de 20% em 2021,
também o mais expressivo desde o início da série histórica. Em 2020, a
valorização foi de 6,3%. “Tem uma parcela muito grande que saiu desse mercado
porque a renda não acompanhou essa alta, eles não podem comprar zero e migraram
para o carro usado. Mesmo com a normalização de peças, a demanda por usados vai
continuar aquecida”, diz Moreira.
A
escassez de carros novos foi intensificada durante a pandemia, mas é reflexo de
mudanças que começaram antes mesmo da disseminação do novo coronavírus. Há ao
menos uma década, a indústria automobilística passa por profundas
transformações tecnológicas para se adequar às exigências de diversos países
por modelos mais sustentáveis. Em paralelo, o crescimento de um nicho de marcas
com alta capacidade de conectividade — representado pela Tesla —, pressiona por
carros cada vez mais tecnológicos. Os semicondutores, uma espécie de componente
eletrônico, são fundamentais para essa transformação. A partir de 2020, em
meios às restrições, sobretudo na China, houve um
desabastecimento global dessas peças, forçando a paralisação de linhas de
montagens de automóveis em todo o mundo. “Houve um aumento mundial pela demanda
de semicondutores, e os fabricantes não conseguiram acompanhar. É um tipo de
produção específica, não é algo que dá para aumentar de um dia para o outro”,
explica Martins.
Se
na ponta da oferta não há indicadores para a normalização do mercado no
médio-prazo, comerciantes de automóveis citam a possível retração forçada dos
consumidores com a alta dos juros. Como a Selic definida
pelo Banco Central (BC) é
usada na base do cálculo para o financiamento de veículos, a escalada da taxa
deve criar barreiras nos próximos meses. Luca Cafici, fundador da InstaCarros,
uma startup que atua no mercado online, afirma que a demanda em 2021 começou a
cair a partir do segundo semestre, em reflexo do início da escalada dos juros
pelo BC. Cafici também chama a atenção para a alta da inflação e a queda do
poder de compra dos brasileiros nos últimos meses como fatores que podem
aliviar a valorização. “Os preços não vão voltar ao que eram no pré-pandemia,
mas esses valores vão depender muito do que vai acontecer com a economia nos
próximos meses, principalmente com a inflação e os juros”, afirma.
Fonte: JP
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